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Adeliano Batista da Silva é um vencedor. Depois de viver por oito anos nas ruas – boa parte do tempo em Mogi das Cruzes – e ser dependente de crack, hoje ele mora em uma casa, trabalha em uma empresa prestadora de serviços de portaria e já abriu sua empresa de jardinagem. Mas esta mudança radical custou nove longos meses de perseverança, dedicação e disciplina, vividos no sítio de recuperação da Associação Rosa Mística, no Itapety, onde várias outras histórias como esta se tornam realidade, mas quase nunca chegam ao público.
Recuperado, ex-morador de rua de Mogi das Cruzes conta história de disciplina e superação
O caso de Adeliano é parecido com o da grande maioria dos moradores de rua. Pai de família, ele se envolveu com drogas e, a partir do uso de crack, sua vida se desestruturou. Deixou a família, o trabalho e em pouco tempo estava nas ruas. Foi andarilho e percorreu 190 cidades, dormindo em bancos de praça, embaixo de viadutos e em dezenas de abrigos para pessoas nesta situação. Em vários momentos, temeu pelo próprio futuro. “Percorri várias cidades do Estado, mas fiquei boa parte do tempo aqui em Mogi mesmo. Fui abordado diversas vezes, estive na Abomoras e sempre voltava para a rua. Só que existe um momento em que você sente medo, porque começa a ver que chegou a um limite. Nessa hora, a persistência dos assistentes é fundamental para fazer você aceitar a mudança. Foi o que aconteceu comigo”, relata Adeliano. O depoimento mostra que a solução para a questão dos moradores de rua é muito mais complexa do que a idéia simplista de uma “faxina” social nas ruas da cidade. O trabalho que retirou Adeliano do abandono foi realizado ao longo de meses, com várias abordagens, recusas, idas e vindas. O próprio Adeliano afirma que os moradores de rua somente deixam a situação após muitas tentativas: “Enquanto o camarada não cai na real, não adianta. Por isso as abordagens constantes são tão importantes”, frisa. O caso de Adeliano é típico. Depois de tentativas de internação sem sucesso, ele percebeu que precisava dar uma chance a si mesmo. Aceitou a sugestão de ir para o sítio da Rosa Mística e, em setembro de 2010, deixou as ruas e passou a conviver com os outros internos. A rotina da associação incluía reuniões espirituais e muito trabalho físico – como cuidar de plantas, carpir e produzir pães e bolos artesanalmente – , tudo para manter o corpo e a mente afastados das drogas. “No começou é muito difícil, mas eu estava percebendo que aos poucos dava resultado. Conheci muitas histórias parecidas lá dentro. Quando a pessoa quer, é possível mudar”, relembra. Em nove meses, Adeliano foi determinado e conseguiu abandonar o crack, à custa de uma rotina árdua de fé, trabalhos braçais e comprometimento com seu próprio futuro. “Quanto mais você avança, mais vê que não pode voltar para o que era”. Recomeço A oportunidade de trabalhar como jardineiro, com um amigo, foi a chance que Adeliano precisava. Acostumado ao dia-a-dia da Rosa Mística, onde este trabalho é realizado cotidianamente, ele não teve problemas e desempenhou bem a função. Paralelamente, conseguiu emprego em uma empresa no setor de portaria e prestação de serviços. Voltou para a casa da mãe, em Ermelino Matarazzo, e hoje leva uma vida normal. “Hoje tenho o meu computador, participo do Facebook, trabalho na empresa e até já abri minha pequena empresa de jardinagem”, comenta, alegre, lembrando que possui clientes em condomínios fechados de Mogi das Cruzes. O próximo passo é se reaproximar da filha, hoje com 14 anos. “Estou dando um passo de cada vez, mas sei que agora tudo é definitivo. Deixei a rua e voltei para a vida”, comemora. O secretário municipal adjunto de Assistência Social, Edson Santos, diz que o exemplo de Adeliano serve para demonstrar a importância do trabalho realizado em Mogi das Cruzes. Ninguém vive nas ruas porque quer, argumenta Santos. Estas pessoas trazem histórias pessoais muito semelhantes, marcadas por desavenças familiares, dependência de álcool e drogas, abandono e falta de atenção: “Reverter um quadro assim leva tempo, mas há histórias positivas que mostram que estamos no caminho certo”, afirma. Nos últimos três anos, Mogi das Cruzes fez importantes investimentos no apoio aos cidadãos em situação de rua. O município possui um quadro efetivo de funcionários concursados e especializados na área, unidades de atendimento aos moradores para pernoite, alimentação e encaminhamento familiar, além de entidades cadastradas que realizam a recuperação de dependentes químicos, como a Rosa Mística e a Casa de Maria. “Nossa rede assistencial é completa e funciona de forma permanente. As abordagens acontecem todos os dias, pela manhã e à noite, e temos todo um suporte para oferecer a estes cidadãos. O caso do Adeliano é uma mostra de que os resultados aparecem, mas eles dependem de tempo e dedicação. Estamos lidando com seres humanos”, finaliza Santos. (MAS)
Secom Mogi das Cruzes |